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Você

olhosfem

Em sua terra, será ninguém.
Entre os oceanos, todos os homens.
De tudo, terá um tanto.
Do que é bom e do que é ruim.
Carregará os pecados latentes.
Poderá distribuir as docilidades.
Terá, enfim, apenas dois direitos:
Escolher e julgar a si mesmo.
Então, seja. E faça sua história.

ACREDITE

Um sonho ficou pra trás, não deu certo?
É por isso que nunca mais vai dar certo?
Que conversa é essa?
A gente tem que se manter aos vinte.
Com aqueles vinte mangos no bolso, se tanto.
Mas vinte mil coisas pra conquistar.
E mais um tanto.
Com a boca a querer beijos.
O coração a querer alegrias.
As pernas a querer jornadas.
A alma a querer liberdade.
O tempo se renova todo dia.
A gente tem que se renovar com ele.
Não se esquecer no caminho.
Nada desse papo de começar a creditar,
Ao invés de acreditar.
Comigo, não!
Tudo vai dar certo!

EXISTÊNCIA

Se há outro plano,
O homem custará
A adaptar-se a ele,
Tão viciado está
Com as falsas
E egoístas realidades
Que abraça diariamente
E imagina ter.

smoke

UM LUGAR

Há momentos em que desejo ir para um lugar
que tenha uma porta só, com chave no lado de dentro
e, lá fora, todos os descaminhos.

Um lugar nem grande, nem pequeno,
mas com tamanho suficiente para guardar meu jeito.

Um cantinho sem luxo, nem lixo,
só chão, teto, um vão para olhar a vida
e uma chaminé para libertar o perdão e expurgar todo o malfeito.

É preciso ter também duas paredes para puxar e vergar,
até juntar os lados e produzir uma dobra no espaço.

E um relógio que goste de cruzar os ponteiros,
correndo os números do fim para o começo
e, a cada novo momento, trocando um abraço.

Que seja castelo de um cômodo só, num mundo sem reino,
em que minhas alegrias sejam reais e os choros, fantasias.

Um remanso onde o Sol beije a Lua, e esta enrubesça,
e eles resolvam ficar juntos numa eterna tardinha,
sem mais manhãs de neblina, nem noites frias.

Um reduto para gritar minhas verdades nascentes
e silenciar minhas ignorâncias tardias.

casinhapassaro

LEMBRETE

O poeta vive para lembrar.
Lembrar que é preciso viver.
E viver é dar cor.
Mesmo ao mundo
cinza dos esquecidos,
que só ouvem
seus próprios gemidos.

greynight 2

O VALE E O VELHO

No Vale, entre morros e mares,
O velho poeta se despe e deita.
Contempla o céu do tempo,
Risca curvas sobre linhas,
Teima em sentir, arrisca sonhar.

As mãos alinhavam sorrisos,
Subvertem a rima e as dores.
Seguem um curso inconformista,
Tal o rio por este campo,
A alimentar, fluir e extravasar.

Ares em versos inquietos
Trazem o sussurro da eternidade,
A lembrar Cassianos e Lobatos,
Enquanto o poeta escreve às crianças
E lê àquela que, em si, quer respirar.

Quem dera ao poeta ainda falar
Aos peitos livres de tijolos,
Os verdadeiros templos universais,
Remoçar almas, colorir expressões,
Levar um novo brilho a cada olhar.

(Menção especial no Prêmio Poetas do Vale – 2012)

Natal 2012

Sexta Sábado Domingo Segunda Natal
Quem dera procurar teu presente
Que ficou perdido na gaveta sem fundo
Em um lugar qualquer do meu passado

gaveta 2

A miséria não é a da vida
Pois esta, mesmo malograda,
Encontra seu final.
É a dos miseráveis
Que se locupletam dela
Após a morte dos poetas,
Recitando-lhes os versos
E usufruindo dos louros
Sobre seus caixões.

eclipse

Desde quando iniciei a leitura dos primeiros livros, os clássicos infanto-juvenis, faço esta pergunta: o que torna alguém escritor? Será que estes seres tão especiais, como Stevenson, Érico, Twain e Clarice, entre tantos outros, simplesmente nascem com um dom que aflora naturalmente e os move de forma inexorável para a pena?

O dom
, por si só, não quer dizer grande coisa. Sentir-se à vontade com as palavras, a ponto de arranjá-las de modo a surpreender e envolver, e até criar algumas, é requisito básico para um escritor de verdade. Só que a este talento natural é preciso acrescentar uma série de outros ingredientes, como o esforço (que envolve estudo, gasto da caneta em incontáveis exercícios e muita, muita leitura).

O amor pelas letras
, que costuma vir à tona logo cedo, na infância, pode ser uma boa resposta. Porém, não é a resposta. Há os que adoram livros e jamais se sentiram atraídos a produzir uma linha sequer. Outros até escrevem, mas escondem os textos na gaveta, o que lhes tira uma das principais qualidades dos escritores: a coragem da exposição de seu nome e ideias ao mundo.

O ego? Claro, uma publicação pode deixar seu autor famoso ou, ao menos, permitir que ostente em seu círculo o nobre título de escritor. Só que… vale a pena diante da contrapartida, que é a real possibilidade de ser objeto de escárnio e sofrer avassaladoras críticas, caso seu texto não tenha um padrão de qualidade que seus contemporâneos julguem bom? Por outro lado, é curioso como a maioria dos bons escritores não são afeitos a aparições públicas, preferindo deixar que suas obras – e respectivos personagens – ganhem as mídias, como se fossem filhotes que obtiveram vida própria a partir da publicação. Há os que até preferem usar pseudônimos, o que também dá o que pensar àqueles que, apressadamente, pensam que o escritor sonha com loas e tapinhas nas costas.

Enriquecimento?
Ora, conta-se nos dedos os autores que usufruíram financeiramente de suas obras, em todos os tempos, em todos os países. No Brasil, país que pouco lê (infelizmente), nem se fale. A verdade é cruel, mas precisa ser dita sem melindres: a esmagadora maioria dos autores nacionais não vive da literatura, pois isso é extremamente complicado.

O desejo irrefreável de escrever?
Sim, todo aquele que almeja ser escritor se dispõe a trocar sem pestanejar muitas de suas horas prazerosas por uma boa e solitária “briga” com a folha branca à sua frente. Porém, o esforço despendido, mesmo elevado à categoria da exaustão, dificilmente resulta em uma boa peça literária. Portanto, só a vontade não basta.

Então, o que torna alguém escritor?
Talvez as respostas anteriores estejam corretas em certa medida. Mas nem somadas elas permitem dar início a uma conclusão: falta o motivo contundente, aquele que faz, mais do que o cérebro, a própria alma gritar: “sou um escritor”.
Alguém só pode se considerar, e ser considerado escritor, no momento em que produz e publica um texto verdadeiramente útil, que acrescente de maneira sadia, que merece ser lido e estudado após sua morte.

É o que penso.

imagem livro